segunda-feira, 8 de julho de 2013

O taxista e a psoriase

Perdi a conta de quantas vezes conversei com taxistas sobre o trânsito de São Paulo — indo para congressos, voltando de entrevistas… Na minha opinião, esse assunto inclusive é ponto central de uma das muitas regras não-escritas das relações sociais entre passageiro e motorista. Explico: ao iniciar uma discussão sobre as ruas congestionadas, o taxista dá a entender que está aberto para um bate-papo. Se, por exemplo, o passageiro demonstra interesse e, após olhar rapidamente para fora da janela, responde que uma das causas do trânsito é o fato de que a maioria dos carros na rua carrega apenas uma pessoa, deixa subentendido que também está a fim de trocar umas ideias.
Foi assim que, na semana passada, comecei a falar com o Gil, taxista de uns 40 e poucos anos que ganhou a missão de me levar da região central de São Paulo até a Zona Oeste na hora do rush. Depois de ele afirmar com todas as letras que, para circular na Avenida Rebouças, só se for com passageiro (o que permite a ele trafegar pela faixa dos ônibus, bem menos travada do que as normais), e eu retrucar que as avenidas em geral da capital paulista estavam entupidas, ele me perguntou o que estava fazendo em um congresso médico. E, sem me deixar responder, já sentenciou: “Está aí uma área que me interessa: a medicina!”
Nem sei se ele me ouviu perguntar “por quê?”, já que logo após terminar de pronunciar a palavra medicina, já disparou: “Veja só, eu tive um problema sério de pele. Você sabe o que épsoríase?”.

O Gil, por volta dos 17 anos, passou a notar que crostas avermelhadas surgiam na sua pele. Com o passar dos meses, a situação foi piorando e, após uma visita malsucedida a um hospital, voltou para casa “quase inteiro coberto” por essas placas. Diz ele que ficou em casa uns bons dias até que sua tia, vendo o estado do sobrinho, mandou-o ir direto para o Hospital das Clínicas de São Paulo.
“A enfermeira me internou na hora”, lembrou-se. E foi lá que o Gil conheceu um médico baiano (ele não se lembra do nome), que, detectando a doença, prescreveu cremes, óleos e outros remédios. O especialista também o tranquilizou ao falar que iria resolver o problema e que psoríase não é transmissível. O taxista contou que aplicava o produto e, depois de alguns minutos, tirava as placas manualmente para, embaixo delas, ver uma pele lisa e saudável. “Em 14 dias, eu troquei de pele como uma cobra. Desde então, ela segue normal graças ao médico baiano. Por isso que me interesso tanto pela medicina e fico revoltado quando comparo os salários de jogadores de futebol com o de médicos”, arrematou.
Achei a história do Gil curiosa demais e, por isso, resolvi entrevistar o dermatologista Marcelo Arnone, coordenador da Campanha Nacional de Conscientização da Psoríase da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Conversamos sobre esse transtorno e especificamente a respeito de alguns pontos do relato que acabei de contar a vocês. Em primeiro lugar, perguntei ao doutor Marcelo se é comum um paciente ter só uma crise ao longo da vida toda. Sua resposta:
“Não é nem um pouco comum. A psoríase geralmente aparece na fase adulta e, a partir da primeira manifestação, tende a se repetir. Estamos falando de uma doença crônica, mas que costuma ser bem controlada quando o paciente segue o tratamento, que, em geral, consiste em intervenções agudas durante o surgimento das lesões e um acompanhamento contínuo do dermatologista. Os remédios evoluíram muito de algumas décadas para cá. Hoje em dia, por exemplo, temos à disposição medicamentos biológicos que surtem efeito em quadros graves, além de cremes bastante eficazes”.
Também questionei o doutor Marcelo sobre o fato de o Gil arrancar as placar avermelhadas durante o tratamento. “Isso é completamente contraindicado! Sabemos que, ao manipular a região afetada, o indivíduo pode agravar o quadro. Para aliviar os sintomas e melhorar a condição da pele, pessoas com essa doença precisam passar hidratantes por toda a vida. Para eles, isso não é um luxo, mas uma necessidade”, explicou.
Pena que, quando estava no táxi, não conhecia essas informações para alertá-lo. Estou torcendo para que o interesse do Gil por medicina e por temas ligados à saúde o tragam de alguma forma até esse blog. Como mensagem final a ele e a todos que tenham psoríase ou conheçam alguém com esse problema, deixo mais um ensinamento do doutor Marcelo Arnone:
“O paciente com psoríase deve saber que é possível melhorar muito a própria qualidade de vida. E todos devemos repassar informações sobre essa enfermidade para acabar de vez com o preconceito. O pior efeito da psoríase é na autoestima — e é isso o que temos que combater todos os dias”.

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